SCU Torreense
A autoestrada A8 nunca soube lidar bem com a pressa, muito menos com o delírio coletivo. O regresso a casa e a entrada na cidade foi uma procissão pagã de faróis, piscas em código morse e bandeiras que cortavam a névoa densa que costuma instalar-se logo a seguir a Mafra. Carros encostados nas bermas, desconhecidos a abraçarem-se em plena rua com a cumplicidade de quem tinha acabado de viver História. E tínhamos. Enquanto regressava e o treinador Luís Tralhão falava a uma ainda incrédula Comunicação Social, imaginei como estaria a ser a festa no balneário. Aqui, o cheiro da adrenalina e do champanhe misturou-se com os cânticos e os gritos de vitória dos jogadores. Stopira, ainda ensopado em suor, carregava o cansaço de quem tinha transportado uma região inteira às costas, ainda pouco consciente da escala do terramoto que provocou. Ao canto, Lucas Paes olhou para as botas sujas de lama e para as mãos que evitaram os golos do Sporting com uma quietude quase mística. Ali dentro não houve discursos motivacionais ou tiradas de circunstância. Apenas o resíduo físico e a consciência coletiva de uma equipa do segundo escalão que, naquela tarde, tinha decidido recusar o papel de vítima perfeita e deu tudo o que tinha para fazer o que nunca tinha sido feito. O Oeste tem esta bizarria geográfica: estamos a um passo de tudo, mas mantemo-nos teimosamente isolados entre vinhas, estufas e as velhas Linhas que outrora travaram invasões. Mas, naquela noite, sem muitos sequer terem previsto, o centro de gravidade de Portugal tinha-se deslocado trinta quilómetros para norte. © Francisco Mota Ferreira | 24 de maio de 2026 francisco.mota.ferreira@gmail.com

Francisco Mota Ferreira

11 de junho de 2026

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