A Praça do Município, em Torres Vedras, estava demasiado cheia para uma noite de domingo. Gritou-se “feriado amanhã”, “vitória”, “orgulho do Oeste”, “estivemos no Jamor”, “Torreense”… tudo bem regado a boa disposição e (muito) álcool à mistura. As pessoas moviam-se com uma estranha hesitação: o Carnaval ensina a cidade a festejar a ficção e o excesso, mas aquilo era uma verdade crua, palpável, difícil de processar pela rotina da província. Como assim, vencemos a Taça de Portugal? Quando o autocarro da equipa finalmente apontou na encosta, escoltado por uma cortina de fumo grená que tornava a iluminação pública baça, o barulho deixou de ser som para passar a ser um impacto físico no peito. A varanda dos Paços do Concelho engoliu os jogadores e foi demasiado pequena para tanta alegria, comoção e entusiasmo. A Taça de Portugal, com aquela prata pesada e aristocrática, brilhava sob os holofotes improvisados, parecendo quase deslocada no meio da nossa gente. Havia idosos encostados às paredes de pedra da praça, homens com os olhos vermelhos que guardavam a mágoa de 1956 como uma cicatriz de família. Setenta anos condensados num abraço desajeitado entre pais que viram o Porto vencer e filhos que agora viam o Sporting cair. Fiquei um pouco afastado, junto ao quiosque fechado, a observar a humidade do rio Sizandro a subir lentamente e a misturar-se com o fumo dos archotes. Amanhã, o futebol profissional, já o sabemos, voltará a ser o negócio assético dos mesmos de sempre, discutido em estúdios de televisão por quem raramente pisa a lama. Mas ontem, no dia 24 de maio do ano da graça de 2026, aquela noite não pertenceu aos comentadores nem aos orçamentos milionários. Pertenceu aos que sabem exatamente o peso de esperar uma vida inteira por um único domingo perfeito. Nós estivemos lá.
Francisco Mota Ferreira
11 de junho de 2026