O fumo das bifanas na mata do Jamor tem uma densidade diferente quando o céu ameaça cinzento, a meio da tarde, e há setenta anos de atraso para resolver. Quem desce aquela encosta em direção ao Estádio Nacional aprende depressa que o futebol ali não se joga apenas no relvado; infiltra-se na terra batida, no cheiro a pinhal e na memória dos que já lá estiveram antes de nós. O Sporting entrou em campo com a solenidade pesada de quem traz os títulos guardados no bolso e o favoritismo assente na ponta da língua. Um gigante mecânico, habituado à digestão rápida dos pequenos. Nós trazíamos os autocarros e os carros dos milhares de adeptos que saíram de Torres Vedras de madrugada e ao início da manhã, carregados de gente que conhece as estradas secundárias do país e ostenta o orgulho do Oeste cravado no maxilar. Gente que ainda fala de 1956 como se tivesse sido ontem. O golo do Zohi, logo aos três minutos, foi uma espécie de erro na matriz. Um rasgão geométrico na lógica do jogo, que deixou o estádio num compasso de espera — aqueles dois segundos de silêncio absoluto em que o cérebro humano se recusa a aceitar que o improvável acabou de acontecer. O Morita vacilou, a bola entrou, e a bancada azul-grená explodiu numa vertigem que parecia prematura. Olhei para o relógio de pulso; o metal estava frio contra a pele. Percebi ali que a tarde seria dolorosamente comprida — o futebol tem este hábito cruel de nos dar esperança cedo demais para saborear o nosso sofrimento. © Francisco Mota Ferreira | 24 de maio de 2026 francisco.mota.ferreira@gmail.com
Francisco Mota Ferreira
11 de junho de 2026